O Chamado da Missão: Ser Ovelha, Ser Voz e Ser Presença no Mundo de Hoje
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Em um mundo marcado pelo barulho incessante, pela busca desenfreada por bens materiais e por uma crescente indiferença espiritual, as palavras de Jesus, registradas há dois milênios pelo evangelista Mateus, ecoam com uma atualidade desconcertante. O capítulo 10 do Evangelho de São Mateus não é apenas um registro histórico da primeira missão dos doze apóstolos; é um manual de conduta, um mapa de navegação para a alma cristã que tenta sobreviver e frutificar nos dias atuais.
Ao relermos a instrução de Jesus — "Não vades para entre os gentios... mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel" — somos confrontados com uma pergunta que inquieta o coração da Igreja moderna: onde está o nosso campo de missão?
Frequentemente, somos tentados a pensar na missão como algo distante, em terras remotas, para povos que nunca ouviram falar de Cristo. Embora isso seja nobre e necessário, o texto sagrado nos convida a olhar para o banco vazio ao nosso lado na igreja. Onde estão os nossos? Onde estão aqueles que foram batizados conosco, que cresceram em nossas comunidades, mas que, por desilusão, dor ou sedução do mundo, se apartaram da fé?
Buscar as "ovelhas perdidas da casa de Israel", hoje, significa ter a coragem de bater à porta do irmão que se afastou. Significa olhar para dentro de nossas próprias famílias e círculos de amizade. Talvez, o maior desafio evangelizador do século XXI não seja apenas converter o desconhecido, mas reconquistar o coração daquele que, conhecendo a fé, decidiu deixá-la. A missão começa em casa. Começa no resgate dos laços partidos, na busca amorosa por aqueles que um dia chamamos de irmãos e que hoje caminham como estranhos.
No entanto, Jesus não nos envia apenas com um mapa geográfico, mas com uma instrução econômica e espiritual radical: "Dai de graça o que de graça recebestes". Em tempos onde o valor de uma pessoa é muitas vezes medido pelo saldo bancário ou pela marca da roupa que veste, o Cristo propõe a lógica da gratuidade e da simplicidade.
A ordem para não levar ouro, nem prata, nem duas túnicas, fere o nosso desejo de segurança material. Vivemos em uma sociedade que nos ensina a acumular, a reter e a exibir. Mas o Evangelho nos questiona: será que acumular riquezas para ostentar status vale a pena, quando há irmãos carecendo do básico, tanto do pão material quanto do pão espiritual? A bagagem excessiva nos torna lentos na caminhada. O cristão que se apega demasiadamente aos bens materiais perde a agilidade necessária para servir.
"O operário é digno do seu alimento", diz o Mestre. Isso não é um convite à miséria, mas à confiança na Divina Providência. É um lembrete de que a nossa segurança não vem da conta poupança, mas da certeza de que Deus cuida daqueles que cuidam das coisas de Deus. Ajudar quem necessita não é apenas um ato de caridade social; é um ato de fé, é esvaziar as mãos para que Deus possa enchê-las de graças maiores.
Contudo, Jesus, em sua infinita honestidade, não nos vende uma ilusão. Ele nos alerta: "Eis que eu vos mando como ovelhas no meio de lobos". Esta talvez seja a passagem que mais exige coragem do cristão moderno. Ser ovelha em meio a lobos não significa ser tolo ou ingênuo, mas manter a mansidão em um mundo agressivo.
Hoje, os "tribunais" e "sinagogas" onde somos açoitados podem ter outros nomes. São as redes sociais onde o linchamento moral é rápido; são os ambientes de trabalho onde a ética cristã é vista como atraso; são as rodas de conversa onde a fé é ridicularizada. Temos nós a coragem de nos mantermos firmes? Temos a disposição de sermos "prudentes como as serpentes e simples como as pombas"?
Muitas vezes, por medo do julgamento alheio, escondemos a nossa cruz. Temos receio de sermos rotulados como fanáticos ou antiquados. Mas o chamado é claro: devemos estar dispostos a ser julgados por anunciar a Jesus Cristo. O sofrimento pelo Evangelho não é um acidente de percurso, é parte da missão. Se o Mestre foi perseguido, o discípulo não deve esperar aplausos do mundo.
Diante de tal desafio, o medo é uma reação natural. "O que vou dizer? Como vou me defender?". A promessa de Jesus é um bálsamo para a nossa ansiedade: "Não sois vós que falais, mas o Espírito de vosso Pai é o que fala em vós".
Esta promessa exige de nós uma "kenosis", um esvaziamento. Precisamos silenciar o nosso ego, as nossas opiniões formadas e os nossos discursos preparados para dar lugar à voz do Espírito Santo. Ser "outro Cristo" nos tempos de hoje não é uma tarefa intelectual, é uma tarefa espiritual. É permitir que Deus use a nossa boca, as nossas mãos e a nossa vida. Quantas vezes deixamos de evangelizar porque achamos que não sabemos falar bonito? A eficácia da missão não está na eloquência humana, mas na unção do Espírito.
Por fim, o texto de Mateus nos leva ao cerne da identidade cristã: a confissão pública de fé. "Todo aquele, portanto, que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai".
Não existe cristianismo secreto. A fé, embora nasça na intimidade do coração, transborda necessariamente para a vida pública. Jesus nos convida a sermos como Ele em nosso tempo, em nosso ciclo de amizade, no nosso trabalho. Não podemos ser cristãos apenas aos domingos. O "confessar" a que Jesus se refere é viver a verdade do Evangelho em cada atitude, em cada escolha, em cada palavra.
O convite está feito. O Mestre continua a chamar e a enviar. O campo de missão é vasto — começa dentro de nossas casas, passa pela desapego aos bens, enfrenta os lobos da cultura moderna e repousa na confiança absoluta no Espírito Santo. Que tenhamos a coragem de responder, não apenas com palavras, mas com uma vida que grita silenciosamente: "Está próximo o Reino dos Céus".
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