A Criação que Louva: O Inusitado Visitante na Capela de Juiz de Fora

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  A liturgia cristã é, por excelência, o momento de encontro entre o Criador e a criatura, um espaço sagrado onde o tempo cronológico se abre à eternidade. Recentemente, um registro em vídeo divulgado pelo portal G1 Zona da Mata, revelou uma cena que parece ter saído da biografia de São Francisco de Assis. Na pequena capela da Comunidade Nossa Senhora da Visitação, em Juiz de Fora, um macaco-bugio tornou-se presença constante, acompanhando com seus sons característicos os cânticos e as preces da assembleia. O Cântico das Criaturas no Século XXI A presença deste primata, relatada com ternura pelo zelador da capela, José Mauro, convida-nos a uma reflexão profunda sobre a extensão da providência divina. Nas imagens exibidas pela reportagem, vemos o animal circular com naturalidade entre os bancos e até "dar a mão" aos presentes. Não estamos apenas perante um fenômeno biológico ou uma curiosidade local, mas diante de um lembrete vivo da harmonia que deve reger a Casa Comum, que é...

Quando a vida ensina a partir: uma reflexão filosófica sobre perdas, limites e maturidade


No fim de cada ano, é comum que as pessoas se tornem mais reflexivas. O tempo parece desacelerar, memórias emergem sem convite e experiências passadas pedem sentido. Não se trata apenas de nostalgia, mas de um movimento profundamente humano: a tentativa de compreender por que certas coisas terminaram e o que esses términos dizem sobre nós. A filosofia, desde seus primórdios, sempre se ocupou dessa pergunta essencial: como viver bem diante da impermanência?

A primeira lição que a vida nos oferece é simples, embora dolorosa: nada termina por acaso. Relações, ciclos, fases e vínculos não se encerram de forma arbitrária. Quando algo chega ao fim, geralmente é porque sua permanência já estava nos ferindo. Muitas vezes, continuamos em situações que nos adoecem por medo, apego ou falta de coragem para admitir que algo precisa acabar. O fim, então, surge como uma resposta tardia, mas necessária.

É importante afirmar, com honestidade, que despedidas doem. Não há romantismo possível nelas. A dor da separação é real, concreta, atravessa o corpo e o pensamento. No entanto, a filosofia nos ensina a desconfiar das dores que desejamos evitar a qualquer custo. Algumas dores não são inimigas; são mestras. Há despedidas que, embora sofridas, salvam. Salvam porque interrompem processos de desgaste, dependência e perda de si.

Do ponto de vista filosófico, o sujeito só se constitui plenamente quando aprende a lidar com a perda. Quem nunca perde, nunca se organiza por dentro. Vive em função do outro, refém de relações que lhe dão identidade emprestada. Aprender a deixar ir não é sinal de frieza, mas de maturidade. É reconhecer que o eu não pode ser construído sobre aquilo que o destrói.

Por isso, é fundamental compreender que nem todo afastamento é falta de amor, perdão ou misericórdia. Há uma confusão frequente entre perdoar e permitir o retorno. Perdoar é um gesto interior, ético, que liberta quem perdoa do ressentimento. Reabrir portas, porém, é uma decisão prática, que deve levar em conta a própria história. É possível desejar o bem ao outro sem permitir que ele volte a ocupar um espaço que um dia custou nossa paz.

A filosofia moral nos ajuda a entender isso como respeito por si mesmo. Não se trata de orgulho, mas de memória. A memória emocional é uma forma de sabedoria: ela registra onde doeu, onde sangrou, onde quase nos perdemos. Ignorá-la em nome de uma falsa virtude é negar a própria experiência. Cura não é reconciliação forçada; cura é coerência interior.

Há pessoas que entram em nossa vida para ensinar limites, não permanência. Elas nos atravessam, nos desestabilizam, nos despertam para algo essencial e depois partem. Quando tentam voltar, muitas vezes não retornam transformadas, mas desejando ocupar o mesmo lugar de antes. Voltar a esse lugar é correr o risco de repetir o adoecimento. A filosofia chama isso de falta de prudência: agir como se o passado não tivesse consequências.

Quando precisamos nos afastar para não nos perder, o retorno pode ser perigoso. Algumas quedas, paradoxalmente, nos protegem. Elas desmontam ilusões, quebram idealizações e rompem encantamentos que nos mantinham presos a vínculos desequilibrados. Cair, nesses casos, é a forma mais honesta que a vida encontra para nos retirar de lugares que não tivemos coragem de abandonar sozinhos.

A distância, embora vista com desconfiança, pode ser um verdadeiro tratamento da alma. Ela organiza o afeto, silencia a confusão e devolve o eixo interior. Muitas pessoas retornam a relações antigas não porque o outro mudou, mas porque têm medo do vazio que a cura provoca. A ferida conhecida parece mais segura do que a liberdade desconhecida. No entanto, crescer exige enfrentar esse vazio.

Se doeu para sair, é porque era sério. Se curou depois que saiu, é porque foi necessário. A vida, em sua sabedoria silenciosa, fecha ciclos porque enxerga além da nossa carência imediata. Insistir em reabrir portas que a própria vida fechou não é amor, mas resistência ao amadurecimento. Crescer dói, mas voltar ao que quase nos destruiu dói mais — apenas de forma mais silenciosa.

Talvez a maior coragem humana seja honrar as despedidas que nos salvaram, as quedas que nos protegeram e as distâncias que nos devolveram a nós mesmos. Nem tudo o que termina é perda. Às vezes, é apenas a vida cuidando de nós com mais delicadeza do que conseguimos perceber.


Quando a Vida Ensina a Partir

No apagar das luzes do ano
Quando o tempo fala baixo,
A memória bate à porta
Sem pedir nem dar despacho.
Não é saudade vazia,
É a alma pedindo encaixe.

A vida faz uma pergunta
Que ninguém pode escapar:
Como seguir caminhando
Se tudo insiste em passar?
Desde os velhos filósofos
É viver sem se quebrar.

Nada acaba por capricho,
Nem termina sem razão,
Quando algo chega ao seu fim
É aviso do coração:
Ficar já estava ferindo,
Partir vira salvação.

Quantas dores toleramos
Por medo de solidão?
Seguramos o que machuca
Com nome de proteção.
Mas o fim chega atrasado
Pra nos dar libertação.

Despedida nunca é doce,
Não tem verso perfumado,
Ela corta, rasga o peito,
Deixa o chão esburacado.
Mas há dor que não destrói,
É remédio disfarçado.

Tem adeus que dói na carne
Mas salva a própria alma,
Interrompe o adoecer
E devolve a nossa calma.
Dor que ensina não é inimiga,
É mestra que nos acalma.

Quem nunca perdeu na vida
Não aprendeu quem se é,
Vive à sombra de outros nomes,
Sem saber firmar o pé.
Perder ensina a ser inteiro,
A sustentar o que é.

Deixar ir não é frieza,
É respeito interior,
Não se constrói identidade
Sobre aquilo que dá dor.
Amadurecer é saber
Onde falta o amor.

Nem todo afastamento é ódio,
Nem falta de compaixão,
Perdoar é coisa da alma,
Voltar já é decisão.
Paz não se negocia
Em nome do perdão.

Memória também é ética,
É saber onde sangrou,
Onde quase se perdeu
E o coração se calou.
Ignorar a própria história
É negar o que ensinou.

Tem gente que entra na vida
Pra ensinar onde é limite,
Não veio pra morar dentro,
Veio pra dar o palpite.
Quando volta sem mudar,
É prudente que se evite.

Algumas quedas protegem
Mais que um abraço falso,
Quebram sonhos mal costurados
E desfazem o engano raso.
Cair é jeito da vida
De nos tirar do laço.

Distância também é cura,
Organiza confusão,
Silencia o que embaralha
E devolve direção.
Crescer é enfrentar o vazio
Sem fugir da solidão.

Se doeu pra sair, foi sério,
Se curou, foi precisão.
A vida fecha caminhos
Com sábia decisão.
Reabrir o que foi fechado
É medo de evolução.

Coragem maior que existe
É honrar o que terminou,
As quedas que protegeram
E o adeus que nos salvou.
Nem todo fim é perda,
Às vezes é Deus que cuidou.

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