A Entrega Total: Encontrando Paz nas Mãos de Deus em Meio à Tribulação
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Baseado na sabedoria da "Imitação de
Cristo"
A vida humana é marcada por altos e baixos, e muitas vezes nos encontramos cercados por dificuldades que parecem maiores do que nossas forças. Desde a nossa infância, somos apresentados a trabalhos, cansaços e, não raro, a nossa alma se entristece profundamente, chegando até às lágrimas. Nesses momentos de angústia, onde as paixões nos oprimem e a luz parece fraca, surge a pergunta essencial para todo cristão: como devemos nos comportar quando a tribulação bate à porta?
A resposta, encontrada na sabedoria antiga
e sempre atual da fé, é o convite à entrega absoluta nas mãos da Divina
Providência.
O Único Refúgio Verdadeiro
O primeiro passo para encontrar a paz no
meio da tempestade é reconhecer quem é a fonte da verdadeira alegria. O homem,
por si mesmo, nada tem. Tudo o que possuímos — a vida, os talentos, os bens e
até a capacidade de amar — recebemos de Deus, muitas vezes sem qualquer mérito
nosso. Se somos pobres e necessitados, Deus é a riqueza infinita.
Portanto, o servo de Deus não deve buscar a
alegria em si mesmo, nem nas outras pessoas, pois tudo isso é passageiro e
falho. A nossa esperança, a nossa coroa e a nossa glória devem estar firmadas
unicamente no Senhor. Quando compreendemos que Ele é o Pai Santo e que tudo o
que Ele faz é bom, o nosso coração começa a se acalmar. Mesmo na dor, podemos
bendizê-Lo, pois sabemos que a Sua vontade é soberana e sempre visa o bem maior
das nossas almas.
A Luz e a Escuridão: A Pedagogia Divina
Todos nós desejamos a paz. Suplicamos a
Deus que nos alimente com a luz das Suas consolações. Quando Ele nos concede
essa graça, a alma parece flutuar; fica cheia de uma doce melodia e somos
capazes de louvá-Lo com fervor, transportados pelo amor. É fácil ser cristão
quando tudo vai bem, quando a luz divina resplandece sobre nós e nos sentimos
protegidos contra qualquer tentação.
No entanto, a verdadeira prova de fé
acontece quando Deus, em Sua misteriosa sabedoria, parece se afastar. Há momentos
em que não conseguimos "correr pelo caminho dos mandamentos" com a
mesma leveza de antes. Sentimo-nos pesados, secos e sozinhos. O que fazer
então?
Este é o momento de não desanimar, mas de
se humilhar. Quando a consolação desaparece, resta-nos bater no peito e dobrar
os joelhos. É hora de entender que, se Deus permite a provação, é porque chegou
o momento de o servo ser testado. Não é um castigo destrutivo, mas uma
preparação amorosa. O Pai, que é soberanamente adorável, sabe que precisamos
passar por um breve tempo de abatimento exterior para que possamos viver, de
forma mais profunda e verdadeira, com Ele no espírito.
O Sofrimento como Remédio da Alma
Para os olhos do mundo, o sofrimento é um
mal a ser evitado a todo custo. Para os olhos da fé, porém, a tribulação pode
ser um presente disfarçado. É uma graça que Deus concede aos Seus amigos:
permitir que padeçam por Seu amor.
Nada neste mundo acontece por acaso. Não
cai uma folha de uma árvore sem que a Providência Divina o permita. Tudo tem
uma causa, um desígnio e uma ordem. Quando somos humilhados, quando nossos
planos falham ou quando a doença nos visita, Deus está trabalhando em nós. Ele
está "limpando a ferrugem dos vícios".
A soberba e a presunção são doenças
espirituais graves que muitas vezes não percebemos quando estamos no auge do
sucesso. Precisamos, às vezes, que o nosso rosto se cubra de confusão para
aprendermos a não confiar nos homens, mas a buscar consolo somente em Deus. A
tribulação nos ensina a temer os juízos de Deus, que são impenetráveis, mas
sempre justos. Ele aflige tanto o justo quanto o pecador, mas sempre com o
objetivo de curar e salvar.
Deus é o Médico celestial das almas. Ele
fere para depois sarar; Ele permite o tormento para depois livrar. O Seu
castigo é, na verdade, um ensino.
A Oração de Entrega: "Eis-me
aqui"
Diante dessa realidade, a atitude mais
sábia e piedosa é a rendição total. Devemos nos colocar diante de Deus e dizer:
"Pai amantíssimo, eis-me aqui em Tuas mãos". Devemos nos inclinar
debaixo da vara que corrige, permitindo que Ele dome a nossa vontade rebelde.
É melhor ser corrigido e purificado neste
mundo, onde ainda há tempo para a conversão, do que enfrentar a justiça divina
na eternidade. Deus conhece o passado, o presente e o futuro. Ele não precisa
que ninguém Lhe explique o que se passa na Terra ou em nossos corações. Ele
sabe exatamente o que é necessário para o nosso progresso espiritual. Ele sabe
qual "remédio" amargo precisamos tomar hoje para sermos santos
amanhã.
A nossa oração deve ser um pedido sincero
para que Deus faça de nós discípulos humildes, prontos a obedecer ao menor
sinal da Sua vontade. Não devemos pedir apenas para que a dor pare, mas para
que a dor cumpra o seu propósito de nos santificar. Devemos pedir para não
sermos desprezados por nossa vida pecaminosa, mas acolhidos pela misericórdia
que transforma.
Discernimento e a Vaidade Humana
Por fim, a entrega a Deus exige que mudemos
a nossa forma de ver o mundo. Frequentemente, nos enganamos com as aparências.
Julgamos as coisas pelo exterior e damos um valor imenso ao que os outros
pensam de nós.
Mas o que vale a opinião humana diante de
Deus? Quando um homem elogia outro, muitas vezes é apenas "um cego guiando
outro cego", ou "um vaidoso adulando outro vaidoso". Os louvores
do mundo são vazios e podem nos levar à confusão e ao orgulho.
Devemos pedir ao Senhor a graça do
verdadeiro discernimento: saber o que devemos saber, amar o que devemos amar e
desprezar o que é odioso aos olhos de Deus. A verdadeira sabedoria é buscar
sempre o que está em conformidade com a vontade divina, e não com a moda ou a
opinião pública.
Como disse com grande sabedoria o humilde
São Francisco de Assis: "O homem é o que é diante de Deus, e nada
mais". Esta frase resume a essência da humildade cristã. Não somos maiores
porque nos elogiam, nem menores porque nos criticam ou nos humilham. O nosso
valor está em sermos filhos amados de Deus, criados e redimidos por Ele.
Que possamos, portanto, atravessar os vales
escuros da vida com a confiança de filhos que seguram a mão do Pai. Se hoje há
choro, sofrimento ou humilhação, saibamos que isso é apenas por "um pouco
de tempo". O objetivo final é ressuscitar com Cristo na aurora de uma nova
luz e possuir a glória do paraíso.
Entreguemos nossas angústias, nossos medos
e nossa própria vontade Àquele que tudo sabe e tudo pode. Pois, ao aceitarmos a
correção divina com paciência e amor, transformamos a nossa dor em um caminho
seguro para o Céu. Que a nossa alma possa dizer, em qualquer circunstância:
"Senhor, faça-se como Vós quereis, pois é bom tudo o que fazeis".
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