A Criação que Louva: O Inusitado Visitante na Capela de Juiz de Fora

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  A liturgia cristã é, por excelência, o momento de encontro entre o Criador e a criatura, um espaço sagrado onde o tempo cronológico se abre à eternidade. Recentemente, um registro em vídeo divulgado pelo portal G1 Zona da Mata, revelou uma cena que parece ter saído da biografia de São Francisco de Assis. Na pequena capela da Comunidade Nossa Senhora da Visitação, em Juiz de Fora, um macaco-bugio tornou-se presença constante, acompanhando com seus sons característicos os cânticos e as preces da assembleia. O Cântico das Criaturas no Século XXI A presença deste primata, relatada com ternura pelo zelador da capela, José Mauro, convida-nos a uma reflexão profunda sobre a extensão da providência divina. Nas imagens exibidas pela reportagem, vemos o animal circular com naturalidade entre os bancos e até "dar a mão" aos presentes. Não estamos apenas perante um fenômeno biológico ou uma curiosidade local, mas diante de um lembrete vivo da harmonia que deve reger a Casa Comum, que é...

O Olhar da Criatura diante do Criador: O Nascimento de Jesus no Estábulo

 


O estábulo era um lugar de sombras longas e cheiro de feno seco, o meu lugar de descanso habitual. Eu sou apenas uma criatura de lã e silêncio, uma entre tantas outras que buscam o calor do rebanho quando a noite cai sobre as colinas de Belém. Mas aquela noite foi diferente. O ar não estava apenas frio; ele estava grávido de uma expectativa que até mesmo nós, os animais, podíamos sentir na pele.

Houve um movimento suave na entrada. Não eram os pastores que conhecíamos, com seus cajados pesados e vozes de comando. Eram dois viajantes cansados. O homem tinha mãos calejadas de quem trabalha com madeira, e a mulher... ah, a mulher carregava o mundo em seu ventre. Eu me afastei um pouco para dar espaço, observando com meus olhos grandes e laterais enquanto eles se acomodavam sobre a palha que, até então, era apenas o nosso alimento e cama.

 

A Luz no Meio do Silêncio

O tempo pareceu parar. O boi, meu companheiro de estrebaria, soltou um bufo quente que subiu como incenso no ar gelado. Eu me aproximei, movida por uma curiosidade mansa.  Não vi o sofrimento no rosto daquela jovem, mas vi também uma paz  e uma alegria que eu nunca tinha encontrado nas pastagens mais verdes.

De repente, o silêncio da noite foi quebrado por um choro. Não era um choro de desespero, mas um som que parecia afinar todas as estrelas do céu. O Criador de tudo o que existe, Aquele que fez as montanhas onde eu pasto e as águas que eu bebo, tinha acabado de se tornar pequeno. Tão pequeno que caberia entre as minhas orelhas.

Maria, a mãe, o envolveu em panos humildes. Ela não tinha um berço de ouro ou mantos de seda. Ela olhou para o lado e viu o nosso cocho — o lugar onde o camponês coloca o grão e o feno. Com uma delicadeza que fez meu coração de animal bater mais devagar, ela deitou o Menino ali mesmo, sobre a palha.

 

O Pão da Vida na Manjedoura

Eu estiquei o pescoço. O cheiro dele era puro, como a chuva primeira que lava a poeira da estrada. Eu, uma simples ovelha, estava a poucos centímetros do Mistério. Meus olhos encontraram os dele por um breve segundo. Naquele olhar, não vi um estranho; vi um Pastor.

Era estranho pensar que nós, os animais, fomos os primeiros convidados. O mundo lá fora estava ocupado demais com censos, moedas de prata e hospedarias lotadas. Mas ali, entre o bafo do boi e o calor da minha lã, o Rei decidiu repousar. A manjedoura, que antes servia para saciar a nossa fome física, agora continha o Pão que desceu do céu para saciar uma fome que eu, na minha simplicidade, apenas intuía que os homens sentiam.

Aquece-me pensar que Deus escolheu a nossa humildade. Ele não escolheu o palácio, com seus tapetes frios e corações de pedra. Ele escolheu o cheiro da terra, a presença dos pequenos e a simplicidade de um estábulo. Talvez porque nós, os animais, não temos orgulho. Nós apenas aceitamos a luz quando ela brilha.

 

Os Visitantes e a Glória

Logo, o silêncio foi preenchido por passos apressados. Eram os pastores. Eu os reconheci pelo cheiro de mato e ovelha selvagem. Eles entraram tropeçando nas próprias palavras, com os olhos arregalados, contando histórias de anjos e cantos celestiais que rasgaram o céu.

Eles se ajoelharam. Vi homens fortes, de pele curtida pelo sol, chorarem como crianças diante daquele cocho. Eu me encolhi a um canto, observando como a luz que emanava do Menino parecia iluminar até os cantos mais escuros das vigas de madeira. Naquela noite, o lobo e o cordeiro pareciam habitar a mesma paz. Não havia medo. Havia apenas uma adoração silenciosa que unia o céu e a terra naquele pequeno espaço de pedra e palha.

 

Reflexões de uma Testemunha de Lã

Muitas estações se passaram desde aquela noite, mas a memória permanece gravada em minha natureza. Muitas vezes me pergunto por que os homens complicam tanto o que é simples. Eles constroem templos enormes e discutem leis difíceis, enquanto a Salvação começou de forma tão silenciosa, num lugar que qualquer um poderia acessar.

O que eu aprendi naquela noite, enquanto o Menino Jesus dormia sob o meu olhar atento?

1.     A Grandeza está na Pequenez: O Criador não teve medo de ser frágil. Ele se tornou dependente de um colo e do calor de animais para nos ensinar que o amor é a maior força que existe.

2.     Acolhida sem Reservas: A manjedoura não perguntou quem Ele era antes de recebê-lo. Ela apenas se ofereceu. Nós devemos ser assim: um lugar pronto para que Ele repouse.

3.     A Paz é Possível: Se num estábulo pobre, entre animais e desconhecidos, a paz foi tão real que podia ser tocada, então ela pode existir em qualquer lugar onde Ele seja o centro.

Eu sou apenas uma ovelha. Eu não entendo de profecias ou de sacrifícios rituais. Mas eu sei que, quando o frio apertava e o mundo parecia esquecido, a Esperança nasceu no meu prato de comida. E, desde aquele dia, o feno nunca mais teve o mesmo gosto; ele tem o perfume da eternidade.

 

O Legado do Estábulo

Quando o sol começou a despontar no horizonte de Belém, tingindo as colinas de um rosa suave, Maria e José pareciam exaustos, mas radiantes. O Menino agora dormia profundamente. Os pastores voltaram para os seus rebanhos, mas não eram os mesmos homens que tinham saído na tarde anterior. Eles agora carregavam uma canção no peito.

E eu? Eu continuei ali, mastigando o feno ao lado da manjedoura sagrada. Mas agora eu sabia: eu não sou apenas uma criatura errante. Eu faço parte de uma criação que foi visitada por seu Criador. Se Ele escolheu o meu lar para ser o Seu primeiro trono, então nenhum lugar é pequeno demais, e nenhuma vida é simples demais para não ser tocada pela Sua graça.

Que todos os corações, assim como a minha manjedoura, se tornem um berço macio e acolhedor para o Senhor que chega sem alarde, pedindo apenas um pouco de espaço para transformar o mundo.

 



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