O Olhar da Criatura diante do Criador: O Nascimento de Jesus no Estábulo
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O estábulo era um lugar de sombras longas e cheiro de feno seco, o meu lugar de descanso habitual. Eu sou apenas uma criatura de lã e silêncio, uma entre tantas outras que buscam o calor do rebanho quando a noite cai sobre as colinas de Belém. Mas aquela noite foi diferente. O ar não estava apenas frio; ele estava grávido de uma expectativa que até mesmo nós, os animais, podíamos sentir na pele.
Houve um movimento suave na entrada. Não
eram os pastores que conhecíamos, com seus cajados pesados e vozes de comando.
Eram dois viajantes cansados. O homem tinha mãos calejadas de quem trabalha com
madeira, e a mulher... ah, a mulher carregava o mundo em seu ventre. Eu me
afastei um pouco para dar espaço, observando com meus olhos grandes e laterais
enquanto eles se acomodavam sobre a palha que, até então, era apenas o nosso
alimento e cama.
A Luz no Meio do Silêncio
O tempo pareceu parar. O boi, meu
companheiro de estrebaria, soltou um bufo quente que subiu como incenso no ar
gelado. Eu me aproximei, movida por uma curiosidade mansa. Não vi o sofrimento no rosto daquela jovem,
mas vi também uma paz e uma alegria que
eu nunca tinha encontrado nas pastagens mais verdes.
De repente, o silêncio da noite foi quebrado
por um choro. Não era um choro de desespero, mas um som que parecia afinar
todas as estrelas do céu. O Criador de tudo o que existe, Aquele que fez as
montanhas onde eu pasto e as águas que eu bebo, tinha acabado de se tornar
pequeno. Tão pequeno que caberia entre as minhas orelhas.
Maria, a mãe, o envolveu em panos humildes.
Ela não tinha um berço de ouro ou mantos de seda. Ela olhou para o lado e viu o
nosso cocho — o lugar onde o camponês coloca o grão e o feno. Com uma
delicadeza que fez meu coração de animal bater mais devagar, ela deitou o
Menino ali mesmo, sobre a palha.
O Pão da Vida na Manjedoura
Eu estiquei o pescoço. O cheiro dele era
puro, como a chuva primeira que lava a poeira da estrada. Eu, uma simples
ovelha, estava a poucos centímetros do Mistério. Meus olhos encontraram os dele
por um breve segundo. Naquele olhar, não vi um estranho; vi um Pastor.
Era estranho pensar que nós, os animais,
fomos os primeiros convidados. O mundo lá fora estava ocupado demais com
censos, moedas de prata e hospedarias lotadas. Mas ali, entre o bafo do boi e o
calor da minha lã, o Rei decidiu repousar. A manjedoura, que antes servia para
saciar a nossa fome física, agora continha o Pão que desceu do céu para saciar
uma fome que eu, na minha simplicidade, apenas intuía que os homens sentiam.
Aquece-me pensar que Deus escolheu a nossa
humildade. Ele não escolheu o palácio, com seus tapetes frios e corações de
pedra. Ele escolheu o cheiro da terra, a presença dos pequenos e a simplicidade
de um estábulo. Talvez porque nós, os animais, não temos orgulho. Nós apenas
aceitamos a luz quando ela brilha.
Os Visitantes e a Glória
Logo, o silêncio foi preenchido por passos
apressados. Eram os pastores. Eu os reconheci pelo cheiro de mato e ovelha
selvagem. Eles entraram tropeçando nas próprias palavras, com os olhos
arregalados, contando histórias de anjos e cantos celestiais que rasgaram o
céu.
Eles se ajoelharam. Vi homens fortes, de
pele curtida pelo sol, chorarem como crianças diante daquele cocho. Eu me
encolhi a um canto, observando como a luz que emanava do Menino parecia
iluminar até os cantos mais escuros das vigas de madeira. Naquela noite, o lobo
e o cordeiro pareciam habitar a mesma paz. Não havia medo. Havia apenas uma
adoração silenciosa que unia o céu e a terra naquele pequeno espaço de pedra e
palha.
Reflexões de uma Testemunha de Lã
Muitas estações se passaram desde aquela
noite, mas a memória permanece gravada em minha natureza. Muitas vezes me
pergunto por que os homens complicam tanto o que é simples. Eles constroem
templos enormes e discutem leis difíceis, enquanto a Salvação começou de forma
tão silenciosa, num lugar que qualquer um poderia acessar.
O que eu aprendi naquela noite, enquanto o
Menino Jesus dormia sob o meu olhar atento?
1.
A
Grandeza está na Pequenez: O
Criador não teve medo de ser frágil. Ele se tornou dependente de um colo e do
calor de animais para nos ensinar que o amor é a maior força que existe.
2.
Acolhida
sem Reservas: A
manjedoura não perguntou quem Ele era antes de recebê-lo. Ela apenas se
ofereceu. Nós devemos ser assim: um lugar pronto para que Ele repouse.
3.
A
Paz é Possível: Se
num estábulo pobre, entre animais e desconhecidos, a paz foi tão real que podia
ser tocada, então ela pode existir em qualquer lugar onde Ele seja o centro.
Eu sou apenas uma ovelha. Eu não entendo de
profecias ou de sacrifícios rituais. Mas eu sei que, quando o frio apertava e o
mundo parecia esquecido, a Esperança nasceu no meu prato de comida. E, desde
aquele dia, o feno nunca mais teve o mesmo gosto; ele tem o perfume da
eternidade.
O Legado do Estábulo
Quando o sol começou a despontar no
horizonte de Belém, tingindo as colinas de um rosa suave, Maria e José pareciam
exaustos, mas radiantes. O Menino agora dormia profundamente. Os pastores
voltaram para os seus rebanhos, mas não eram os mesmos homens que tinham saído
na tarde anterior. Eles agora carregavam uma canção no peito.
E eu? Eu continuei ali, mastigando o feno
ao lado da manjedoura sagrada. Mas agora eu sabia: eu não sou apenas uma
criatura errante. Eu faço parte de uma criação que foi visitada por seu
Criador. Se Ele escolheu o meu lar para ser o Seu primeiro trono, então nenhum
lugar é pequeno demais, e nenhuma vida é simples demais para não ser tocada pela
Sua graça.
Que todos os corações, assim como a minha
manjedoura, se tornem um berço macio e acolhedor para o Senhor que chega sem
alarde, pedindo apenas um pouco de espaço para transformar o mundo.
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