A ignorância é pecado? A “burrice” à luz da doutrina católica
A vida espiritual é uma jornada que, por vezes, nos leva a atravessar desertos de secura. Quem de nós nunca sentiu o coração árido, a oração fria, as palavras a fugir, sem saber o que dizer a Deus? Nesse momento de desamparo, em que a alma parece vazia, a sabedoria dos santos nos aponta um caminho de esperança e ternura. O nosso mestre, São Josemaria Escrivá, com a sua profunda e simples piedade, oferece-nos um conselho precioso no ponto 695 do seu livro Sulco, um bálsamo para o nosso espírito.
Ele nos diz:
"Sempre que te vejas com o coração seco, sem saber o que dizer, recorre com confiança à Virgem Santíssima. Dize-lhe: Minha Mãe Imaculada, intercedei por mim. Se a invocares com fé, Ela te fará saborear - no meio dessa secura - a proximidade de Deus."
Que luz maravilhosa se acende nessas poucas palavras! São Josemaria não nega a realidade da secura espiritual. Pelo contrário, ele a reconhece como uma experiência comum na caminhada de fé. Contudo, ele nos ensina a não cair no desânimo ou no retraimento. A secura não é um sinal de que Deus nos abandonou; muitas vezes, é uma purificação, um convite para amar de forma mais pura, sem a doçura do consolo sensível.
O coração seco é como uma terra que anseia pela chuva. É um estado em que a alegria da oração se esvai, o fervor diminui, e nos sentimos incapazes de qualquer afeto ou reflexão piedosa. Nesse deserto, nossa humanidade, frágil e limitada, é posta à prova. A tentação é parar de rezar, de nos afastar, pensando que Deus não nos ouve ou que não somos dignos de Sua presença.
Mas aqui reside o primeiro grande ensinamento de São Josemaria: a secura deve ser o momento de recorrer com confiança à Virgem Santíssima. A confiança é a chave que abre o tesouro da graça. Ela não se baseia no nosso sentimento, mas na verdade de Quem é Maria.
Quando a oração se torna um peso, quando a mente se dispersa e o coração não sente nada, é preciso lembrar-nos de que a Virgem Maria é a Mãe de Deus e nossa Mãe. Ela não é uma divindade distante, mas o refúgio seguro, a criatura mais perfeita e mais próxima do Pai. Se não podemos ir a Deus com as nossas próprias palavras, vamos com Aquele que Ele mesmo nos deu como mediadora de todas as graças e intercessora por excelência.
São Josemaria sugere uma jaculatória, uma oração curta e poderosa, acessível mesmo ao coração mais exausto: "Minha Mãe Imaculada, intercedei por mim."
"Minha Mãe": Esta palavra carrega todo o peso da filiação e da ternura. É o reconhecimento de um vínculo que é mais forte do que qualquer desânimo ou pecado. Ao chamá-la de "Minha Mãe", saímos do isolamento e nos colocamos sob a proteção do seu manto.
"Imaculada": Este título recorda-nos a sua perfeição, a sua santidade plena, livre de toda a mancha. É por ser Imaculada que o seu pedido junto a Deus tem um peso e uma eficácia incomparáveis.
"Intercedei por mim": É o ato de humildade suprema. Reconhecemos que não podemos fazer nada sozinhos. Pedimos a intercessão, o pedido de ajuda, a oração daquela que soube dizer o "Sim" perfeito a Deus. Entregamos a Ela a nossa incapacidade, o nosso silêncio, para que Ela o complete com o seu amor.
Esta oração é um ato de fé que transcende a emoção. É um ato da vontade, uma decisão de continuar a caminhar mesmo sem sentir o chão sob os pés. É a fé que, como Maria ao pé da Cruz, permanece firme e silenciosa, mesmo na escuridão mais profunda.
A promessa que acompanha este conselho é de uma beleza consoladora: "Se a invocares com fé, Ela te fará saborear - no meio dessa secura - a proximidade de Deus."
Note-se bem: o consolo prometido não é a remoção da secura, mas a experiência da proximidade de Deus no meio dela.
A secura pode permanecer como um exercício de pureza, mas, através da intercessão da Mãe, recebemos uma graça mais profunda e valiosa do que qualquer consolação sensível: a certeza íntima e espiritual de que Deus está connosco. Maria é o canal pelo qual a graça de Deus se derrama sobre nós. Foi Ela que trouxe Cristo ao mundo, e é Ela que o traz, de novo e de novo, aos nossos corações áridos.
Este "sabor" à proximidade de Deus é uma experiência de fé pura. É a nossa alma a ser nutrida não por nós mesmos ou pelos nossos sentimentos, mas por Deus em Maria. É um Amor Escondido, que não grita nem se impõe, mas que nos sustenta na perseverança. É o reconhecimento silencioso de que, mesmo quando somos incapazes de Lhe dizer uma palavra, Ele continua a nos amar infinitamente.
O conselho de São Josemaria é, em última análise, um convite à humildade e à piedade filial.
Humildade: Porque reconhecemos que a nossa força não está em nós mesmos, mas na mãe do nosso Salvador. Não nos orgulhamos da nossa oração, mas nos refugiamos na oração d'Ela.
Piedade Filial: Porque tratamos a Virgem Santíssima não como uma figura distante, mas como a nossa Mãe mais amorosa e mais próxima. Ela é o atalho seguro para o Coração do Seu Filho.
Que façamos deste ensinamento um farol nos momentos de trevas espirituais. Quando a oração for difícil, quando as palavras falharem, quando a alma gemer de cansaço, lembremo-nos da doce invocação: "Minha Mãe Imaculada, intercedei por mim."
Com esta simples oração nos lábios e no coração, o deserto se tornará, misteriosamente, um jardim, e a secura se converterá em terreno fértil para que Deus, na Sua Ternura, possa fazer-nos saborear a Sua bendita e inabalável Proximidade.
Amém
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