A Criação que Louva: O Inusitado Visitante na Capela de Juiz de Fora

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  A liturgia cristã é, por excelência, o momento de encontro entre o Criador e a criatura, um espaço sagrado onde o tempo cronológico se abre à eternidade. Recentemente, um registro em vídeo divulgado pelo portal G1 Zona da Mata, revelou uma cena que parece ter saído da biografia de São Francisco de Assis. Na pequena capela da Comunidade Nossa Senhora da Visitação, em Juiz de Fora, um macaco-bugio tornou-se presença constante, acompanhando com seus sons característicos os cânticos e as preces da assembleia. O Cântico das Criaturas no Século XXI A presença deste primata, relatada com ternura pelo zelador da capela, José Mauro, convida-nos a uma reflexão profunda sobre a extensão da providência divina. Nas imagens exibidas pela reportagem, vemos o animal circular com naturalidade entre os bancos e até "dar a mão" aos presentes. Não estamos apenas perante um fenômeno biológico ou uma curiosidade local, mas diante de um lembrete vivo da harmonia que deve reger a Casa Comum, que é...

O Sussurro de Deus no Coração: A Luz das Revelações Privadas Segundo a Igreja



Artigo Reflexivo e Devocional

Em um mundo onde o ruído e a pressa parecem abafar a voz de Deus, a alma humana, sedenta de sentido e de uma proximidade mais íntima com o Sagrado, frequentemente se volta para as chamadas "Revelações Privadas". Tais experiências — visões, mensagens, aparições de Nosso Senhor, da Virgem Maria ou dos Santos — têm pontuado a história da Igreja, desde as primeiras comunidades cristãs até os dias de hoje. Mas qual é a postura da nossa Mãe e Mestra, a Santa Igreja, sobre estes dons místicos? O que nos ensina o Catecismo da Igreja Católica (CIC), o farol seguro da nossa fé, a respeito destes sussurros divinos no coração?

A resposta do Catecismo, em sua simplicidade e profundidade, convida-nos à discernimento e à humildade.

A Única e Definitiva Fonte: Jesus Cristo

Para compreendermos o lugar das revelações privadas, é crucial firmarmo-nos no rochedo da Revelação Pública. O CIC, de forma clara e inequívoca, afirma que Jesus Cristo é a plenitude e o ápice de toda a Revelação.

O parágrafo 65 do Catecismo é o nosso ponto de partida fundamental:

“A Revelação foi consumada com a pregação do Evangelho. Não há mais nenhuma nova revelação pública a esperar antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo.”

Isto significa que, com a morte do último apóstolo e o depósito da fé contido na Sagrada Escritura e na Tradição, Deus disse-nos tudo o que tínhamos de saber para a nossa salvação. A Palavra de Deus encarnada, Jesus, é a derradeira e perfeita Palavra. Não há, nem haverá, nada que possa ser acrescentado, suprimido ou que mude a essência do nosso Credo.

Esta verdade deve ser fonte de profunda paz e confiança. Não andamos no escuro, à espera de uma nova verdade que nos salve. A verdade já nos foi dada, e ela nos liberta (Jo 8, 32).

O Papel das Revelações Privadas: Ajuda e Guia

Então, se a Revelação Pública está completa, qual é a utilidade e a natureza destas experiências místicas pessoais ou coletivas, como Fátima, Lourdes ou Guadalupe? O CIC aborda isto no parágrafo 67:

“Ao longo dos séculos, houve revelações ditas ‘privadas’, algumas das quais foram reconhecidas pela autoridade da Igreja. Não pertencem, no entanto, ao depósito da fé. A sua função não é ‘melhorar’ ou ‘completar’ a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a viver dela mais plenamente numa determinada época da história.”

Aqui reside o cerne da questão, um convite à reflexão piedosa:

  1. Não são Essenciais para a Salvação: As revelações privadas nunca são obrigatórias para todos os fiéis. O Católico é obrigado a crer nos dogmas da fé (Credo), não nas aparições marianas, de santos ou até mesmo de Jesus, mesmo que aprovadas. A fé inegociável é a que nos salva.

  2. São um Auxílio Devocional: O seu propósito é puramente pastoral. Elas servem como uma âncora espiritual para o povo de Deus em momentos específicos. Por exemplo, a mensagem de Fátima, com seu apelo à oração, penitência e conversão, foi um bálsamo e um alerta no turbulento século XX.

  3. Reforçam a Fé: Elas não trazem um evangelho novo, mas nos chamam a viver o Evangelho de modo mais fervoroso. Elas nos lembram, de formas dramáticas e tocantes, as verdades que corremos o risco de esquecer: a seriedade do pecado, a realidade do Céu, do Purgatório e do Inferno, e a ternura da intercessão da Virgem.

O Critério Inegociável: A Fé e a Autoridade Eclesial

O parágrafo 67 conclui com uma advertência paterna, que é o nosso guia mais seguro:

“Guiada pelo Magistério da Igreja, a sensatez dos fiéis sabe discernir e acolher o que nessas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja.”

Esta frase é uma âncora de segurança contra os perigos da ilusão, do fanatismo e da falsa profecia. A Igreja ensina-nos que a aceitação de uma revelação privada deve passar por dois filtros santos:

1. A Conformidade com a Fé (O Conteúdo)

Uma revelação genuína jamais poderá:

  • Contradizer a Sagrada Escritura ou a Sagrada Tradição.

  • Conter doutrinas ou morais contrárias ao Magistério da Igreja.

  • Promover o cisma, o ódio, o medo ou a desobediência à Hierarquia.

Se um anjo viesse do céu a pregar um evangelho diferente do que recebemos (como adverte São Paulo em Gl 1, 8), deveríamos rejeitá-lo. O fruto de uma verdadeira mensagem do Céu é sempre a conversão, a caridade, a paz interior e uma maior devoção aos Sacramentos.

2. O Reconhecimento da Autoridade (A Forma)

A palavra final e o discernimento pertencem ao Magistério (os Bispos em comunhão com o Papa). Ninguém deve seguir cegamente uma alegada aparição antes que a autoridade eclesiástica competente tenha se pronunciado, ou, no mínimo, se mantenha em atitude de cautelosa prudência.

Esta submissão à autoridade não é uma prisão, mas uma proteção. É o colo materno da Igreja que nos defende das ciladas do maligno, que muitas vezes se disfarça de anjo de luz (2 Cor 11, 14), e dos enganos da nossa própria imaginação. O humilde não corre atrás de novidades, mas se contenta com o Pão da Vida oferecido diariamente no Altar.

A Reflexão Pessoal: Discernimento e Frutos

O cristão piedoso, ao deparar-se com o tema das revelações privadas, é chamado a uma profunda reflexão e a um exame de consciência:

  • Busco o Extraordinário ou o Essencial? Existe a tentação, nos dias de hoje, de valorizar mais a "sensação" do milagre do que a quietude e a beleza da vida sacramental. Deus está mais presente no silêncio da Hóstia Consagrada do que nas mais estrondosas profecias. A devoção inegociável deve ser à Eucaristia.

  • O que o Senhor me Pede AGORA? As mensagens aprovadas (Fátima, por exemplo) não nos pedem "coisas novas", mas que voltemos aos pilares da vida cristã: oração do Terço, penitência e reparação pelos pecados. Em vez de buscar o que o vidente viu, é mais urgente fazer o que a Senhora pediu.

  • Qual é o Meu Fruto? Se o contato com uma revelação privada me torna mais caridoso, mais obediente aos sacerdotes, mais assíduo na Missa e mais paciente com o próximo, então ela cumpriu a sua função. Se, ao contrário, me torna crítico, cismático ou obcecado por datas e castigos, deve ser abandonada, pois o seu fruto é amargo.

Conclusão: Um Chamado à Santidade 

As Revelações Privadas são como estrelas cadentes: belas, luminosas, mas não são o nosso sol. O nosso Sol, a nossa única e suficiente Luz, é Jesus Cristo, brilhando na Sagrada Escritura e na Tradição, interpretadas pelo Magistério.

O ensinamento do Catecismo nos convida à maturidade espiritual: a viver uma fé adulta, que não depende de sinais constantes, mas que se enraíza na certeza de que Deus falou, e a Sua Palavra é Fiel e Eterna.

Portanto, acolhamos com reverência e discernimento os dons de Deus, sem nunca desviar o olhar do Altar e do Crucifixo. Que a Virgem Maria, a primeira a guardar a Palavra de Deus no coração (Lc 2, 19), nos ensine a viver o nosso batismo com tamanha profundidade, que a nossa própria vida se torne a mais bela e luminosa das revelações do amor de Deus ao mundo.

Amém.

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