Princípio e o Fim, a Semente e a Colheita: Uma Meditação sobre o Ciclo Sagrado da Vida
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
A vida é, em essência, uma grande jornada. E em dois momentos cruciais dessa viagem, somos apresentados a um instrumento de apoio, um engenhoso aparato de metal e plástico: o andador.
Imagine a cena, capturada não por uma
lente, mas pela lente da alma, nos corredores de uma casa abençoada. De um
lado, um bebê, recém-chegado ao mundo, sustentado pelo seu andador
infantil, um carro de corrida colorido que mal toca o chão. Ele é a própria
alvorada. De mãozinha no queixo, ele para. Não por cansaço, mas por pura,
inebriante contemplação. Seus olhos, ainda pouco focados, mas cheios do brilho
de um universo que se descortina, miram a outra ponta do corredor.
Lá, lento, porém firme, move-se o seu idoso
avô. Ele também está em seu andador, uma moldura prateada que sustenta um
corpo que serviu fielmente por oito ou nove décadas. Seus ombros estão curvados
não pelo peso do tempo, mas pelo peso da sabedoria. Sua mão, enrugada e
manchada, agarra a espuma macia do apoio. Ele não está apressado, pois sabe que
a chegada é inevitável; ele está presente.
Eles se encaram—o Princípio e o Fim, a
Semente e a Colheita.
O bebê é a promessa pura, a página
imaculada onde Deus começou a escrever uma nova história. Ele ainda não
experimentou o fel das decepções, nem a doçura das vitórias. O idoso é o
pergaminho completo, coberto de notas, rasuras, parágrafos luminosos e capítulos
sombrios que, somados, formam uma obra-prima de fé e perseverança.
E o que eles têm em comum, além do aparato
de metal?
Eles compartilham a dependência.
O bebê depende do andador para conquistar
seus primeiros passos de autonomia; o idoso, para preservar seus últimos. O ato
de caminhar, para ambos, é um ato de fé assistida, uma lembrança humilde de
que, sem o suporte de algo ou Alguém maior, a queda é certa. O bebê confia em
sua estrutura para que possa correr; o idoso confia em sua estrutura para que não
pare.
Essa cena nos revela uma profunda verdade
espiritual: no ciclo da vida, a única coisa que realmente muda é a natureza do intervalo.
O bebê, ao apoiar o queixo na mão, parece
perguntar: "O que vem agora? O que devo fazer com essa força que sinto em
minhas pernas, que me empurra para a frente?" Ele está no limiar da ação.
O idoso, movendo-se com a lentidão meditativa, parece responder: "Abracei,
lutei e amei. E agora, o que levo comigo? O que realmente importou de tudo o
que fiz?" Ele está no limiar da contemplação.
A sabedoria, sussurrada pelo silêncio deste
encontro mudo, clareia-se em uma única e poderosa reflexão:
O começo e o fim são
iguais, aproveite o intervalo.
Sim, o começo e o fim são iguais: ambos
marcados pela vulnerabilidade, pela necessidade de apoio e pela certeza da
transição.
O bebê acaba de sair da Fonte, que é Deus;
o idoso está prestes a retornar a Ela. Deus nos da na vida um breve momento, o intervalo,
para aprender o que significa caminhar. E caminhar, na jornada da fé, não é
apenas mover os pés; é mover o coração. É usar a força da juventude para
construir um legado de amor e a paciência da velhice para tecer um manto de
oração.
O tempo que passamos no meio, o
"intervalo", é o nosso grande presente. É o tempo para trocar o
andador, não por bengalas, mas por asas de serviço e amor a Deus e ao
próximo. É o tempo para deixar de lado a contemplação infantil ("O que
o mundo fará por mim?") e abraçar a contemplação madura ("O que farei
eu pelo mundo, com a força que me foi dada por Deus?").
É neste intervalo que somos chamados a:
Espalhar a semente da bondade, da esperança, da fé e do amor, não a do julgamento e da discórdia.
Viver cada respiração como um louvor a Deus, cada passo como uma peregrinação para o Céu.
Que a imagem desses dois andarilhos nos
inspire uma piedosa urgência. Que não desperdicemos a oportunidade de usar
nossas pernas, nossos corações e nossas mentes neste precioso intervalo que
Deus nos dá. Que sejamos como o bebê: cheios de curiosidade e prontos para
avançar. E que sejamos como o idoso: cheios de gratidão e prontos para
descansar em Deus.
O andador do bebê e o andador do idoso são
lembretes de que a vida, quando vivida plenamente, nos leva para Céu,
completando o círculo. O que resta, na memória de Deus e na dos que amamos, é o
modo como trilhamos o caminho do meio.
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos

Comentários
Postar um comentário