Antes do "Sim": A Urgência da Estrutura Humana para o Matrimônio
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Como bem provocou o Padre José Eduardo em uma reflexão que ecoou fortemente nas redes sociais pela sua honestidade cortante: "Encalhado é quem casou errado". Esta frase, embora pareça dura à primeira vista, encerra uma verdade antropológica profunda. A crise dos matrimônios contemporâneos, que muitas vezes desmoronam ao primeiro sinal de contrariedade, raramente tem sua raiz na instituição matrimonial em si. O problema é anterior. Ele reside na falta de uma formação humana, psicológica e espiritual sólida durante o tempo da solteirice — um período que não deve ser visto como uma "espera passiva", mas como um canteiro de obras da própria personalidade.
O "Ogro Moral" e a Falta de Virtude
A vida cristã não se resume a práticas de piedade isoladas. O Padre destaca um fenômeno alarmante: a pessoa que "reza, reza", mas no cotidiano é um "ogro moral". O que isso significa? Significa que a oração não está se traduzindo em virtude. A virtude, para a Patrística e para a Escolástica, é uma "disposição habitual e firme para fazer o bem". Se a oração não torna o indivíduo mais paciente, mais servil e mais ordenado, ela corre o risco de ser apenas um exercício de autorreferencialidade.
O namoro e o casamento exigem o que os Padres da Igreja chamavam de ascese — o exercício da autodisciplina. O exemplo cotidiano citado pelo sacerdote é emblemático: se um jovem não consegue sequer arrumar a própria cama ou retirar os restos de uma refeição da mesa, ele demonstra uma incapacidade crônica de servir no pequeno. O matrimônio é uma doação total de si (cf. Gaudium et Spes, n. 48). Como alguém poderá se doar por inteiro se não é dono nem dos seus impulsos básicos ou das obrigações domésticas mais simples?
A Solteirice como Tempo de "Virar Gente"
A sociedade frequentemente estigmatiza quem está sozinho, usando termos pejorativos como "encalhado". Contudo, sob o olhar da teologia pastoral, a solteirice é o tempo providencial para a aquisição de virtudes. É o momento de "virar gente" antes de tentar ser a "outra metade" de alguém. É o tempo de se tornar um ser humano íntegro, para que o encontro com o outro seja um transbordamento de riqueza interior, e não um encontro de duas carências desesperadas.
Três pilares são fundamentais para esse amadurecimento:
Resiliência e Frustração: O Padre adverte que quem é "nervosinho" e não suporta ser contrariado precisa "tomar porta na cara" e aprender com o sofrimento. A vida real exige resistência. O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que a maturidade exige um "aprendizado do domínio de si" (CIC 2339). Sem a capacidade de suportar as humilhações ou dificuldades do trabalho, o cônjuge se tornará um "homem de geleia" ou uma "mulher desestruturada", incapaz de sustentar o outro nas inevitáveis crises da vida a dois.
Independência Emocional: Muitos buscam o casamento esperando que o cônjuge supra a carência deixada por pais excessivamente protetores. Procuram um "cuidador" ou alguém que tenha a mesma "subserviência emocional" que receberam na infância. Mas o casamento é a união de dois adultos que decidem caminhar juntos. Quem não cresce e continua à espera de ser carregado no colo acabará esgotando o parceiro.
A Primazia do Caráter: "Beleza não se põe na mesa". O que sustenta o lar não é a estética, mas a estrutura interna da pessoa. De que adianta casar com alguém visualmente impecável se essa pessoa não possui a têmpera necessária para enfrentar as noites em claro, as dificuldades financeiras ou as doenças?
O Papel da Família e a Terceirização da Educação
Um ponto crucial da fala do sacerdote toca na ferida das famílias contemporâneas: a falha na formação humana básica. Muitos pais "terceirizam" a educação dos filhos para a escola ou para o mundo digital, encontrando-se com eles apenas de forma superficial nos finais de semana. O resultado é uma geração que não teve modelos de "homem de verdade" ou "mulher de verdade" para copiar.
O Magistério da Igreja, na Exortação Apostólica Familiaris Consortio, de São João Paulo II, reforça que a família é a "escola do mais rico humanismo". Se a família falha em ensinar o valor do trabalho, do sacrifício e da convivência com o diferente, ela lança no mundo indivíduos "sem estrutura". A verdade, por mais que doa, precisa ser dita: muitos matrimônios fracassam porque os envolvidos nunca aprenderam a ser, de fato, adultos.
Um Chamado à Realidade Pastoral
A mensagem do Padre José Eduardo, embora soe como um "tapa na cara", é, na verdade, um ato de profunda caridade pastoral. É preferível o choque da verdade durante a solteirice ou o namoro do que a dor de um divórcio ou de uma vida conjugal miserável no futuro. O Sacramento do Matrimônio é uma vocação sublime, uma imagem do amor de Cristo pela Igreja (Efésios 5, 32). Para que esse sinal seja visível e duradouro, o "material humano" precisa estar minimamente lapidado.
Portanto, se você deseja o matrimônio, não tenha pressa de apenas "encontrar alguém". Tenha pressa de se tornar alguém que vale a pena ser encontrado. Use o tempo de hoje para fortalecer seu caráter, para aprender a servir sem reclamar e para buscar a santidade nas pequenas ordens do dia. O amor cristão não é um sentimento flutuante que nasce pronto; é uma decisão de uma vontade treinada na virtude e sustentada pela graça de Deus.
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