A Criação que Louva: O Inusitado Visitante na Capela de Juiz de Fora

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  A liturgia cristã é, por excelência, o momento de encontro entre o Criador e a criatura, um espaço sagrado onde o tempo cronológico se abre à eternidade. Recentemente, um registro em vídeo divulgado pelo portal G1 Zona da Mata, revelou uma cena que parece ter saído da biografia de São Francisco de Assis. Na pequena capela da Comunidade Nossa Senhora da Visitação, em Juiz de Fora, um macaco-bugio tornou-se presença constante, acompanhando com seus sons característicos os cânticos e as preces da assembleia. O Cântico das Criaturas no Século XXI A presença deste primata, relatada com ternura pelo zelador da capela, José Mauro, convida-nos a uma reflexão profunda sobre a extensão da providência divina. Nas imagens exibidas pela reportagem, vemos o animal circular com naturalidade entre os bancos e até "dar a mão" aos presentes. Não estamos apenas perante um fenômeno biológico ou uma curiosidade local, mas diante de um lembrete vivo da harmonia que deve reger a Casa Comum, que é...

Antes do "Sim": A Urgência da Estrutura Humana para o Matrimônio


Muitos jovens e adultos chegam aos pés do altar com o coração repleto de expectativas românticas, mas com a alma desprovida das ferramentas básicas para a convivência. Existe uma ideia equivocada, quase mágica, de que o Sacramento do Matrimônio, por si só, resolverá as deficiências de caráter dos nubentes. No entanto, a teologia clássica, especialmente na linha de São Tomás de Aquino, ensina-nos um princípio fundamental:
a graça pressupõe a natureza. Sem uma base humana sólida, o edifício espiritual do casamento dificilmente se sustenta.

Como bem provocou o Padre José Eduardo em uma reflexão que ecoou fortemente nas redes sociais pela sua honestidade cortante: "Encalhado é quem casou errado". Esta frase, embora pareça dura à primeira vista, encerra uma verdade antropológica profunda. A crise dos matrimônios contemporâneos, que muitas vezes desmoronam ao primeiro sinal de contrariedade, raramente tem sua raiz na instituição matrimonial em si. O problema é anterior. Ele reside na falta de uma formação humana, psicológica e espiritual sólida durante o tempo da solteirice — um período que não deve ser visto como uma "espera passiva", mas como um canteiro de obras da própria personalidade.

O "Ogro Moral" e a Falta de Virtude

A vida cristã não se resume a práticas de piedade isoladas. O Padre destaca um fenômeno alarmante: a pessoa que "reza, reza", mas no cotidiano é um "ogro moral". O que isso significa? Significa que a oração não está se traduzindo em virtude. A virtude, para a Patrística e para a Escolástica, é uma "disposição habitual e firme para fazer o bem". Se a oração não torna o indivíduo mais paciente, mais servil e mais ordenado, ela corre o risco de ser apenas um exercício de autorreferencialidade.

O namoro e o casamento exigem o que os Padres da Igreja chamavam de ascese — o exercício da autodisciplina. O exemplo cotidiano citado pelo sacerdote é emblemático: se um jovem não consegue sequer arrumar a própria cama ou retirar os restos de uma refeição da mesa, ele demonstra uma incapacidade crônica de servir no pequeno. O matrimônio é uma doação total de si (cf. Gaudium et Spes, n. 48). Como alguém poderá se doar por inteiro se não é dono nem dos seus impulsos básicos ou das obrigações domésticas mais simples?

A Solteirice como Tempo de "Virar Gente"

A sociedade frequentemente estigmatiza quem está sozinho, usando termos pejorativos como "encalhado". Contudo, sob o olhar da teologia pastoral, a solteirice é o tempo providencial para a aquisição de virtudes. É o momento de "virar gente" antes de tentar ser a "outra metade" de alguém. É o tempo de se tornar um ser humano íntegro, para que o encontro com o outro seja um transbordamento de riqueza interior, e não um encontro de duas carências desesperadas.

Três pilares são fundamentais para esse amadurecimento:

  1. Resiliência e Frustração: O Padre adverte que quem é "nervosinho" e não suporta ser contrariado precisa "tomar porta na cara" e aprender com o sofrimento. A vida real exige resistência. O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que a maturidade exige um "aprendizado do domínio de si" (CIC 2339). Sem a capacidade de suportar as humilhações ou dificuldades do trabalho, o cônjuge se tornará um "homem de geleia" ou uma "mulher desestruturada", incapaz de sustentar o outro nas inevitáveis crises da vida a dois.

  2. Independência Emocional: Muitos buscam o casamento esperando que o cônjuge supra a carência deixada por pais excessivamente protetores. Procuram um "cuidador" ou alguém que tenha a mesma "subserviência emocional" que receberam na infância. Mas o casamento é a união de dois adultos que decidem caminhar juntos. Quem não cresce e continua à espera de ser carregado no colo acabará esgotando o parceiro.

  3. A Primazia do Caráter: "Beleza não se põe na mesa". O que sustenta o lar não é a estética, mas a estrutura interna da pessoa. De que adianta casar com alguém visualmente impecável se essa pessoa não possui a têmpera necessária para enfrentar as noites em claro, as dificuldades financeiras ou as doenças?

O Papel da Família e a Terceirização da Educação

Um ponto crucial da fala do sacerdote toca na ferida das famílias contemporâneas: a falha na formação humana básica. Muitos pais "terceirizam" a educação dos filhos para a escola ou para o mundo digital, encontrando-se com eles apenas de forma superficial nos finais de semana. O resultado é uma geração que não teve modelos de "homem de verdade" ou "mulher de verdade" para copiar.

O Magistério da Igreja, na Exortação Apostólica Familiaris Consortio, de São João Paulo II, reforça que a família é a "escola do mais rico humanismo". Se a família falha em ensinar o valor do trabalho, do sacrifício e da convivência com o diferente, ela lança no mundo indivíduos "sem estrutura". A verdade, por mais que doa, precisa ser dita: muitos matrimônios fracassam porque os envolvidos nunca aprenderam a ser, de fato, adultos.

Um Chamado à Realidade Pastoral

A mensagem do Padre José Eduardo, embora soe como um "tapa na cara", é, na verdade, um ato de profunda caridade pastoral. É preferível o choque da verdade durante a solteirice ou o namoro do que a dor de um divórcio ou de uma vida conjugal miserável no futuro. O Sacramento do Matrimônio é uma vocação sublime, uma imagem do amor de Cristo pela Igreja (Efésios 5, 32). Para que esse sinal seja visível e duradouro, o "material humano" precisa estar minimamente lapidado.

Portanto, se você deseja o matrimônio, não tenha pressa de apenas "encontrar alguém". Tenha pressa de se tornar alguém que vale a pena ser encontrado. Use o tempo de hoje para fortalecer seu caráter, para aprender a servir sem reclamar e para buscar a santidade nas pequenas ordens do dia. O amor cristão não é um sentimento flutuante que nasce pronto; é uma decisão de uma vontade treinada na virtude e sustentada pela graça de Deus.



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