A Criação que Louva: O Inusitado Visitante na Capela de Juiz de Fora

Imagem
  A liturgia cristã é, por excelência, o momento de encontro entre o Criador e a criatura, um espaço sagrado onde o tempo cronológico se abre à eternidade. Recentemente, um registro em vídeo divulgado pelo portal G1 Zona da Mata, revelou uma cena que parece ter saído da biografia de São Francisco de Assis. Na pequena capela da Comunidade Nossa Senhora da Visitação, em Juiz de Fora, um macaco-bugio tornou-se presença constante, acompanhando com seus sons característicos os cânticos e as preces da assembleia. O Cântico das Criaturas no Século XXI A presença deste primata, relatada com ternura pelo zelador da capela, José Mauro, convida-nos a uma reflexão profunda sobre a extensão da providência divina. Nas imagens exibidas pela reportagem, vemos o animal circular com naturalidade entre os bancos e até "dar a mão" aos presentes. Não estamos apenas perante um fenômeno biológico ou uma curiosidade local, mas diante de um lembrete vivo da harmonia que deve reger a Casa Comum, que é...

O Beijo na Relíquia: Idolatria ou Piedade Bíblica?


É comum ouvirmos, em diálogos ecumênicos ou em círculos menos familiarizados com a Tradição Católica, a afirmação categórica de que beijar ou honrar relíquias — sejam fragmentos do corpo de um santo ou objetos que lhe pertenceram — seria uma forma de idolatria. O argumento central costuma ser a suposta ausência de fundamento nas Escrituras. No entanto, para o olhar da fé iluminado pela razão e pela história, a veneração das relíquias revela-se não como um "poder mágico" dos objetos, mas como um desdobramento profundo do mistério da Encarnação e da Ressurreição.

O Fundamento Bíblico: Quando a Matéria se Torna Canal da Graça

A acusação de que objetos inanimados não podem servir de mediação para o poder de Deus cai por terra diante de uma leitura atenta do Novo Testamento. No livro dos Atos dos Apóstolos (At 19, 11-12), encontramos um relato impressionante: "Deus realizava milagres extraordinários por intermédio de Paulo, de tal modo que se aplicavam aos doentes lenços e aventais que tinham tocado o seu corpo, e as doenças os deixavam e os espíritos malignos saíam".

Aqui, o texto sagrado é explícito: a cura não vinha da "trama do tecido", mas de Deus, que escolheu utilizar objetos que estiveram em contato com o corpo do Apóstolo como canais de sua graça. Da mesma forma, no Evangelho de Mateus, a mulher que sofria de um fluxo de sangue há doze anos não buscou um discurso teórico, mas um gesto físico: "Se eu tão somente tocar na orla do seu manto, ficarei curada" (Mt 9, 21). Jesus não a repreendeu por "idolatria ao vestuário", mas exaltou sua fé.

Esses episódios demonstram que, na economia da salvação, Deus se serve do que é visível e tangível para comunicar o invisível. Se o Criador se fez carne em Jesus, a matéria foi dignificada e pode, sim, ser portadora do sagrado.

A Voz da História: A Herança da Igreja Primitiva

A veneração de relíquias não é uma "invenção medieval", como alguns críticos sugerem. Ela pulsa no coração da Igreja Primitiva. Relatos do apologista Quadrato, ainda no século II, indicam que os primeiros cristãos guardavam com imenso zelo objetos ligados à infância de Jesus e pertences pessoais de Pedro, Paulo e João. Eles compreendiam que esses itens eram elos vivos com a pregação apostólica.

Um dos testemunhos mais comoventes da Patrística é o do martírio de São Policarpo (Ano 156). Após sua morte na fogueira, os fiéis de Esmirna recolheram cuidadosamente suas cinzas e ossos, descrevendo-os como "mais preciosos que pedras preciosas e mais puros que o ouro". Eles não adoravam Policarpo, mas honravam nele a imagem de Cristo, celebrando anualmente o dia de seu martírio como o "dia de seu nascimento" para o céu.

Visão Teológica e Patrística: O Corpo como Templo e Instrumento

Para entender a teologia por trás das relíquias, recorremos a Santo Agostinho. O Bispo de Hipona explicava que os restos mortais dos santos não devem ser desprezados, pois seus corpos foram "instrumentos e vasos do Espírito Santo para toda boa obra".

A Igreja ensina que o cristão, pelo Batismo, torna-se "Templo do Espírito Santo". Portanto, o corpo de um santo não é apenas "matéria orgânica", mas uma parte da criação que foi santificada pela recepção dos Sacramentos, pela prática das virtudes heróicas e pela habitação da Santíssima Trindade. Ao honrarmos uma relíquia, estamos, na verdade, bendizendo a Deus pelas maravilhas que Ele realizou naquela pessoa. É o que a teologia chama de veneração (dulia), que é essencialmente distinta da adoração (latria), reservada exclusivamente a Deus.

Uma Ponte Emocional e Espiritual: A Pedagogia do Carinho

Para facilitar a compreensão deste conceito, podemos usar uma analogia do cotidiano. Imagine que você guarde o uniforme de um antepassado que foi um herói de guerra, ou uma caneta usada por um avô querido para escrever cartas de amor. Você não acredita que o uniforme tenha "poderes mágicos" para ganhar batalhas, nem que a caneta escreva sozinha. No entanto, ao tocar esses objetos, você sente uma conexão real com a história e os valores daquelas pessoas.

A relíquia funciona como essa ponte. Ela é um auxílio pedagógico para a nossa fé. O beijo na relíquia é um gesto de carinho espiritual que atravessa o tempo e o espaço, conectando o fiel à "nuvem de testemunhas" (Hb 12, 1) que nos precedeu. É um sinal de que a santidade é possível e que os amigos de Deus continuam intercedendo por nós na Comunhão dos Santos.

Um Gesto de Esperança na Ressurreição

Beijar uma relíquia não é, portanto, coisa de idólatra, mas um ato de quem compreende a profundidade da fé encarnada. Ao tocarmos o que restou de um santo, professamos nossa crença na Ressurreição da Carne. Cremos que aqueles restos mortais, hoje guardados em relicários, um dia serão revestidos de imortalidade.

A veneração das relíquias nos educa para a humildade: Deus escolhe as coisas "fracas e pequenas" deste mundo para confundir as fortes. Que ao nos aproximarmos de uma relíquia, nosso coração não se prenda ao objeto, mas se eleve ao Senhor de toda santidade, que faz maravilhas através de seus filhos e filhas.

Na próxima vez que encontrar uma relíquia, não tenha medo do gesto de carinho. Lembre-se que você está tocando a história de alguém que amou a Deus sobre todas as coisas. Peça a intercessão desse santo para que você também, no seu cotidiano, se torne um "instrumento vivo" da graça divina.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Quando a vida ensina a partir: uma reflexão filosófica sobre perdas, limites e maturidade

A Visita do Sol Nascente: Uma Nova Manhã de Esperança e Redenção

O Chamado da Missão: Ser Ovelha, Ser Voz e Ser Presença no Mundo de Hoje